
Agora está tão longe, ver
A linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora além de aqui dentro de mim?
(Legião Urbana)
É certo que o ser humano evita, ao máximo, sentir dor. Afinal, ela gera desconforto e não é uma experiência agradável. Mas a dor do luto vai além — é dilaceradora. É quando você percebe, com toda a força, que perdeu de vez alguém querido. A relação se encerra de forma definitiva, sem possibilidade de retorno.
Apesar de ser inevitável, nunca estamos realmente preparados para essa dor.
O luto é um processo multifacetado, cheio de camadas e nuances. Ele desencadeia um turbilhão de emoções: perplexidade, descrença, raiva, culpa, tristeza profunda, saudade, arrependimento — sentimentos que muitas vezes se confundem e se sobrepõem.
O que é o luto, afinal, e porque ele dói tanto?
O luto é uma resposta emocional e comportamental que gera intenso sofrimento, podendo estar relacionado à perda de pessoas queridas, lugares, relacionamentos ou até objetos com valor afetivo.
Segundo o psicólogo John Bowlby, criador da Teoria do Apego, o luto é um conjunto de reações que as pessoas apresentam ao vivenciarem uma perda significativa.
A forma como essa dor é percebida varia de pessoa para pessoa e sofre forte influência de fatores culturais, religiosos e, principalmente, da qualidade do vínculo com quem partiu. Quanto mais forte o laço de apego, maior tende a ser o sofrimento.
Além disso, relações marcadas por negligência, abandono emocional ou falta de empatia também podem tornar o processo mais complexo, dando origem ao chamado luto complicado ou não adaptativo, muitas vezes acompanhado de sentimentos como culpa, fracasso e dor intensa.
Mesmo sendo um processo doloroso e triste, o luto é uma experiência natural da vida — e quem está passando por ele não está, necessariamente, doente. Trata-se de uma resposta legítima diante da perda, que precisa ser acolhida, compreendida e respeitada.
Fases do luto
Segundo o psicólogo John Bowlby (1990), existem quatro fases principais no processo de luto:
1. Entorpecimento
Essa fase ocorre logo após a pessoa receber a notícia da morte do ente querido. É marcada por sentimentos de choque, negação e aflição. A sensação de incredulidade é comum, e essa etapa pode durar de algumas horas a várias semanas.
2. Anseio e busca
Surge o desejo intenso de ter a pessoa de volta. É comum que a pessoa enlutada tenha sonhos com quem partiu, sinta inquietação constante e até mantenha hábitos ligados à presença da pessoa falecida, como falar com ela ou visitar lugares marcantes.
3. Desorganização e desespero
Aqui, a consciência da perda se aprofunda. A pessoa enlutada pode experimentar sentimentos de culpa, ansiedade, tristeza e raiva. Pode se sentir abandonada e impotente diante da impossibilidade de mudar os fatos. É um momento de profundo sofrimento emocional e confusão interna.
4. Reorganização
Com o tempo, mesmo com a saudade ainda presente, a pessoa começa a encontrar caminhos para reorganizar a própria vida. Ainda em adaptação às mudanças causadas pela perda, consegue retomar gradualmente suas atividades e investir em novos vínculos e projetos.
O luto como um processo subjetivo e único
Embora existam descrições teóricas sobre as fases do luto, é essencial lembrar que essa experiência é subjetiva, singular e profundamente pessoal. Cada pessoa vivencia o luto à sua maneira, influenciada por crenças, valores, experiências anteriores, cultura, espiritualidade e pela natureza da relação com quem partiu.
O mais importante é que o processo seja respeitado e acolhido com empatia e escuta — sem pressa, sem julgamentos.
Quando o luto se torna complicado
O luto pode se tornar complicado quando a dor se prolonga por muitos meses ou até anos, impedindo a pessoa de retomar sua vida de forma funcional. Nesses casos, o sofrimento se mantém constante e paralisante, comprometendo atividades cotidianas, relações e bem-estar emocional.
Esse tipo de luto geralmente está relacionado a uma elaboração desadaptativa, influenciada por crenças disfuncionais sobre a morte, como a ideia de que seguir em frente seria uma forma de desrespeito ou esquecimento de quem partiu.
Alguns sinais de alerta incluem:
- Dificuldade persistente em aceitar a perda
- Sentimentos intensos e duradouros de culpa
- Isolamento social prolongado
- Incapacidade de se envolver em novos projetos ou relações
- Pensamentos recorrentes de que a vida perdeu o sentido
Nesses casos, buscar ajuda profissional é fundamental. A psicoterapia pode ajudar a elaborar o luto, resgatar o sentido da vida e restaurar a conexão com a própria história.
Como passar pelo luto de forma adaptativa?
Existem caminhos que podem tornar o processo de luto mais saudável e possível de ser enfrentado com menos sofrimento:
• Aceite a finitude da vida
Entender que a morte faz parte da existência humana é um passo importante. Em algum momento, todos nós vivenciaremos a perda de alguém amado.
• Acolha suas emoções
Permita-se sentir. Chorar, entristecer-se, sentir raiva ou saudade são expressões legítimas de dor — e não devem ser reprimidas.
• Dê sentido à dor que está vivendo
A dor sinaliza que houve amor, vínculo, afeto. Compreender esse significado pode trazer alívio e permitir a reconstrução.
• Busque sua rede de apoio
Fale sobre quem partiu. Compartilhe lembranças, sentimentos, o que essa pessoa representou. Reforçar esse legado ajuda na integração da perda.
• Procure ajuda profissional, se necessário
Nem sempre familiares e amigos conseguem acolher com escuta ativa e sem julgamentos. Nesses casos, o apoio de uma psicóloga pode ser essencial para elaborar a dor e encontrar caminhos para seguir.
O papel da psicoterapia no processo de luto
A psicoterapia também oferece a oportunidade de revisitar crenças limitantes que podem estar contribuindo para um luto desadaptativo, intensificando o sofrimento e bloqueando a capacidade de seguir adiante.
O processo terapêutico permite reconhecer como pensamentos rígidos ou distorcidos influenciam diretamente na manutenção da dor. Ao trazer essas crenças à consciência, a pessoa pode, com apoio profissional, ativar suas potencialidades internas e encontrar formas mais saudáveis de lidar com a perda.
A psicoterapia é um espaço seguro de escuta, acolhimento e reconstrução — onde a dor é reconhecida, mas também é possível ressignificá-la com respeito e cuidado.
Caso você esteja passando por um processo de luto e não esteja se sentindo acolhido(a), compreendido(a) ou esteja tendo dificuldades para ressignificar esse momento — desenvolvendo pensamentos e comportamentos que têm intensificado sua dor — saiba que estou aqui para lhe ajudar.
Ofereço um espaço psicoterapêutico seguro, de escuta, cuidado e reconstrução. Você não precisa passar por isso sozinho(a).
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